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Entrevista: Yasutaka Tanaka

Yasutaka Tanaka
O Shihan do Brasil

Professor Rosimar com o Tanaka, no campeonato em Brasília (2004)

Nascido e Tóquio no dia 8 de outubro de 1936, sensei Tanaka viveu no Japão até os 6 anos de idade, indo depois com a família para a China. Voltou ao Japão após o fim da 2ªGuerra Mundial. Morou mais alguns anos no Japão, onde fez a faculdade. Foi na faculdade de Takudae que Tanaka conheceu o Karatê, diretamente com o Sensei Nakayama. Naquela época o karatê era diferente. O karatê era budo, era para a formação. Não se treinava para ganhar títulos e sim para desenvolver a mente, o corpo e o espírito. Hoje, Tanaka está no topo da hierarquia do Karatê–Do Tradicional no Brasil, e é um dos mais importantes mestres do Karatê –Do Tradicional de todo o mundo.

Com o tempo dizia – se cansado do Japão, e como o Brasil, na época, era o único país do mundo que recebia imigrantes japoneses, teve que escolher entre viver no Japão ou vir para o Brasil. Resolveu, então vir ao Brasil em 1959. Sensei Tanaka não veio ao Brasil com a intenção de praticar karatê, até porque o Karatê praticado no Brasil era restrito a poucos lugares, em São Paulo. Existia poucas escolas. Naquela época os principais professores eram os professores Sagara, Harada, Akamine, Uriu e o Higashino.

Professor Rosimar com o Tanaka, no campeonato em Brasília (2004)

Em 1962, os professores Tanaka e Uriu foram para o Rio de Janeiro, onde o Karatê era completamente desconhecido. Lá implantaram o Karatê. Em 1964, a Federação de Pugilismo os procurou para se filiarem a ela. Em 1965, realizaram oficialmente o primeiro Campeonato Carioca.

Em 1968, como ainda não existia uma Confederação Brasileira de Karatê, a Confederação de Pugilismo convidou a academia do Sensei Tanaka para participar de um campeonato interestadual entre Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Bahia. Lá em Brasília, foi o professor Higashino que organizou.

A confederação de Pugilismo gostou do resultado e abriu um departamento para o Karatê. Em 1969 foi disputado o primeiro Campeonato Brasileiro e essa vinculação ao Pugilismo durou até o ano de 1985. Neste ano houveram divergências políticas, e principalmente técnicas: O Prof. Tanaka saiu do grupo que estava fundando a Confederação Brasileira de Karatê. O prof. Tanaka saiu da Organização e passou a trabalhar de forma isolada mais por pouco tempo.

KIAI – É quais eram as divergências técnicas que o levaram a abandonar o grupo?

Tanaka – "Naquela época o presidente da CBP, era o general Andrade Neves. Eu ia para o Japão nos Campeonatos da JKA e pedia ao General que nos deixassem representar o Brasil lá. Coisa que ele nunca permitiu, mais assim mesmo íamos competir, só que não usávamos a bandeira do Brasil.

Mas voltando a sua pergunta, cada vez que íamos ao Japão, notava que o Karatê que fazíamos aqui, não era um bom Karatê. Aí fomos perdendo o interesse pois os Professores daqui não estavam interessados em mudar e atualizar o Karatê. Achávamos que já não fazíamos um karatê de verdade, e para piorar, naquele ano, no acessor técnico, Denilson Caribé faleceu e as coisas piorara ainda mais, e aí me retirei."

 
KIAI – O senhor abandonou a CBP, apenas por questões técnicas ou haviam outros motivos?

Tanaka – "Sai apenas por motivos técnicos . Se todos pensassem no nível técnico do Karatê não haveriam brigas mais todos pensam no pessoal. É por isso que existem muitas Confederações, brigam entre eles, se separam e criam outras.

Digo que sempre é bom Ter contatos com amigos, se você se fecha e um dia precisar de ajuda não vai ser ajudado por ninguém. Nós, o líderes é que temos que dar exemplo, não se pode crescer sozinho, infelizmente a política dentro do Karatê sempre atrapalhou muito. Acredito que um dia as pessoas que brigam irão compreender que o Karatê não pode ficar parado, deve haver trocas de técnicas e idéias."

 
KIAI – Qual organização vocês eram filiados, a WUKO?
Tanaka – Não a IAKF.
 

Criação do Karatê Tradicional

KIAI – E como foi criado o Tradicional?

Tanaka – "Na época era difícil criar, oficialmente, uma federação. Era necessário justificar as diferenças do Esporte para o Comitê Olímpico Internacional (COI) e o único que conseguiu foi o professor Nishiama. Ele conseguiu mostrar ao COI que o Karatê-Do Tradicional era um esporte diferente do praticado pela WUKO. O COI reconheceu o Karatê como esporte, sendo então, criado a ITKF. Com a criação da ITKF, Abriu–se um porta para montar uma federação também no Brasil.

O Professor Tanaka criou, com a ajuda do Professor Tubino do CND, a federação de Karatê –Do Tradicional do Rio de Janeiro. Chamou pessoas que trabalhassem só a parte técnica do Karatê, pois para ele o Karatê se desenvolve na parte técnica do Karatê, não na política. O começo foi difícil, foram dez anos de trabalho duro, mais valeu a pena."

 
KIAI – Qual foi o motivo real que levou o Prof. Nishiama a criar a ITKF?
Tanaka – "Por volta de 1973, houveram desentendimentos técnicos muito grandes, mais o pior foi o desentendimento filosófico, onde o Prof. Nishiama se preocupou em manter os valores Tradicionais do Karatê. Criou o Karatê –Do Tradicional que prioriza a manutenção dos valores filosóficos e técnicos do Karatê Shotokan".
 
KIAI – O Sr. trabalha com a Karatê desde 1966. Como vê o atual Karatê no Brasil?

Tanaka – "O Karatê no Brasil, na época da IAKF, já era um dos melhores do mundo. Humildemente, afirmo que está, hoje, entre os três melhores do mundo.

O Karatê ficou famoso com os fuzileiros navais da EUA, que ficaram nas bases do Japão, após a Segunda Guerra Mundial, mais a partir das competições implantadas em 1958 é que houve o "boom " do Karatê. O Karatê, a nível de competição, ainda é novo, vai crescer mais ainda. A JKA, através do Prof. Nakayama, realizou um trabalho para mandar professores para o mundo inteiro, são atitudes como essa que desenvolvem nosso esporte."

 
KIAI – Como o Sr. vê a atual divisão do Karatê Shotokan no Japão?

Tanaka – "...(risos). Isso é meio complicado de falar. Não quero falar muito a respeito disso pois tenho essa vergonha de comentar.

Anualmente, acontece no Japão um festival esportivo chamado Kokutae, está é a maior e mais importante festa do esporte feito no Japão. Antigamente, nestas festas era utilizadas as regras da Nihon Karatê Kyokai (NKK), mais com o passar dos anos a federação japonesa ficou muito forte, passando a adotar na festa, as regras da WUKO (a atual WKF) isto mudou totalmente as regras e a técnica, foi uma bomba que a NKK, pois muita gente preferiu o karatê mais suave WUKO, ao invés do karatê duro da NKK. E após um tempo houve a morte do Sensei Nakayama, surgindo os primeiros rachas que todos sabem; infelizmente alguns professores saíram e criaram similares e deu nisso.

Não esta certo brigar é péssimo e como falei tenho até vergonha quando lembro que amigos meus estão no meio desta situação horrível."

 
KIAI – Como o Sr. vê a contribuição do mestre Nishiama para o Karatê mundial?
Tanaka – "Ele conhece muito de karatê, é uma pessoa rara. Seu nível técnico, psicológico e político é muito bom. Posso chama–lo de fenômeno, um gênio. Tenho muito respeito por ele. As pessoas o seguem pelo seu karatê e pela maneira com que ele se dedica ao Karatê. Ele é o último reduto do karatê verdadeiro filosófico, e cientifico".
 
KIAI – Quem foi verdadeiramente seu mestre?
Tanaka – "Como foi na faculdade que iniciei com o Karatê, não houve uma pessoa certa, foi um grupo. Nosso sensei era o Prof. Nakayama, lá estava também o sensei Nishiama, mas treinávamos diariamente com professores da faculdade".
 
KIAI – Tecnicamente o karatê está mudando?

Tanaka – "Não. Está voltando ao karatê de antigamente. Aquele da época em que o Prof. Nakayama e o Prof. Nishiama ensinavam. Felizmente está mudando para

o sentido verdadeiro do Karatê, e isto devido as pesquisas e estudos dos movimentos e dos golpes, que aliás eram o que mais faziam os professores Nakayama e Nishiama".

 
KIAI – Então para o Sr. os professores Nakayama e Nishiama são dois gênios do Karatê?

Tanaka – "Em nível científico sim; mas não há nada com relação a pesquisa que chegue perto deles. A JKA é, hoje, um centro de pesquisas do Karatê, mas perto do Prof. Nishiama acho que eles estão começando, embora ele seja um dos fundadores da JKA (NKK).

Eu mesmo aprendi, através de pancada. Errava, levava porrada, mas ninguém falava nada. Batiam em mim e tinha que descobrir no que estava errando. Hoje, tem a pesquisa didática do ensino."

 
KIAI – O homem atual está cada vez mais complexo, mais complicado e a população cada vez maior. O que o Sr. acha que o Karatê pode fazer para amenizar esta situação?
Tanaka – "O maior problema é o de não saber o que é certo e errado; o que é certo para um é errado para o outro. Um terrorista que mata um monte de gente, Em Israel, é herói na Palestina. O nosso presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, foi exilado do país, ou seja. Foi expulso, e hoje é o homem mais importante aqui; só que ele já foi bandido e hoje é mocinho. Esta ambigüidade existe em todos os aspectos da vida. Todos deveriam pensar de forma igual, seria mais simples. O karatê é o caminho para busca e a perfeição do homem, pois bem direcionado, conduz o homem ao auto controle e a busca interior."
 
KIAI – Como está composta a hierarquia do Karatê –Do Tradicional no Brasil?
Tanaka – "Atualmente o Karatê –Do Tradicional tem 5 pessoas na Comissão Técnica pela ordem de importância: somos eu, os professores Enoki, Machida. Sasaki e Watanabe."
 
KIAI – E o Segundo Escalão?
Tanaka – "O segundo escalão é formado pelos presidentes das Federações e os professores mais atuantes, entre os quais cito o Presidente da Confederação. Oswaldo Mendonça, e os professores Gilberto Gaertner, Humberto, Ximenes, Ecner, Kazuo Nagamine, Serginho e o Hugo Arrigoni. Haverão outros, mas não me lembro de todos nomes agora."
 
KIAI – Quem "puxa" o Karatê–Do Tradicional hoje em dia?

Tanaka – "É o conjunto. Não posso dizer que sou só eu, cada um tem um função, se faltasse um, não teria esse sucesso. Todos contribuem bastante.

Acho que neste sentido Watanabe trabalhou muito, Sasaki trabalhou muito, Machida também fez muito pelo Karatê –Do Tradicional. Acho que se não tivesse tido um de nós, o Tradicional não teria atingido este sucesso, este nível. Para falar a verdade, acho que fui o que menos trabalhou do grupo."

 
KIAI – Falando em trabalho, o Sr. tem 63 anos, é 8º Dan e a maior autoridade do Tradicional na América do Sul, e até hoje trabalha nas competições: árbrita, fica na bandeira, puxa, estica. E por que isto?
Tanaka – "Acontece que também na arbitragem a prática é fundamental e a arbitragem é muita responsabilidade não quero ver nenhum atleta prejudicado, como os árbitros trabalham muito e sempre faltam árbitros, por isso ajudo e faço com o maior prazer."
 
KIAI – No karatê se usa muito o termo Samurai. Por isto lhe pergunto quantos samurais o Sr. conheceu na vida?
Tanaka – "O prof. Nakayama, o prof. Nishiama, o prof. Asai, estes professores que dirigem o Karatê mundialmente têm que ser samurais."
 
KIAI – O Sr. poderia me definir o que é um samurai?

Tanaka – "É muito difícil, mas vou tentar.

1º - Um Samurai não têm duas palavras.

2º - ode morrer a qualquer momento, mas tem que deixar o nome limpo.

3º - Um samurai nunca tem dúvida em seus atos, para viver ou para morrer, ele vai até o fim no que acredita."

 
KIAI – Como pai de todos, como o Sr. vê o problema surgido dentro do Tradicional, após a introdução da JKA no grupo?

Tanaka – "Para começar, conheço e entendo a preocupação de muitos presidentes de federações e filiados, mas estas pessoas precisam entender que a Nihon Karatê Kyokai (JKA) não é uma entidade que administra o esporte e sim uma escola que difunde a prática do Karatê Shotokan e cuida, basicamente, da evolução técnica e científica do karatê Shotokan. Só aqui no Brasil ,80% do karatê é Shotokan.

O problema é que várias pessoas estivera envolvidas com a JKA, aqui no Brasil, só que nunca diretamente com a entidade. E nos foi oferecida a oportunidade de trabalharmos diretamente com a JKA. O Sensei Nishiama que é o nosso líder no Karatê –Do Tradicional, é fundador da JKA e nos autorizou a desenvolver este trabalho dentro do Tradicional e fora dele.

Era uma questão de pegar o largar, se não aceitássemos a representação da JKA outros fariam. E a JKA é nossa casa, nossa origem. Todos nós do 1ºescalão saímos de lá. Agora eu não me envolvi diretamente no assunto da JKA, mas talvez a coisa tenha que ser mais amadurecida.

Respondendo sua pergunta, acho que a JKA soma para o grupo, se achasse que ela iria subtrair do Tradicional, teria sido o primeiro a vetar. De qualquer forma, tenho certeza que temos no Tradicional, professores de 1ª qualidade e todos os aspectos, não só no karatê, o bom senso sempre reinou em nosso grupo. Acima de tudo confio nos homens que formamos e hoje andam lado a lado conosco.

Se Deus quiser, em breve tudo deverá estar caminhando a bom termo."

Matéria Extraída do Revista Kiai Ano VI - #32